Reality Check Miguel Soares
Expecting to fly
Catarina Campino interviews Miguel Soares
from the Under Surveillance/Sob Vigilância catalogue, Sept2002
"Expecting to fly"
é um vídeo de 3'40'' editado apartir de 40' de filmagem em bruto
dos momentos posteriores a um acidente automóvel.
Inicia-se com a câmara
a ser pousada no parapeito de uma varanda, imediatamente a seguir e em reacção
ao estrondo provocado pelo acidente.
A imagem, captada à distância e em plano aberto, mostra-nos um
carro virado sobre um dos lados. É madrugada, as ruas estão quase
desertas.
Do lado oposto da rua surge um jogger transeunte, que corre em auxílio
de possíveis vítimas. Um carro que circulava na altura, faz inversão
de
marcha e aponta os faróis na direcção do veículo
acidentado. Fade out a negro. A imagem abre agora com um zoom in, sobre o jogger
que,
enquanto observa toda a acção junto ao carro, inicia movimentos
de aquecimento para a corrida matinal.Fade out a negro. Chegam os bombeiros
e a polícia para tomar conta da ocorrência, a qual parece não
ter tido nenhumas consequências para além dos danos ao veículo
e do susto
inflingido aos passageiros. Toda esta acção é sonorizada,
por Miguel Soares, com uma mistura entre som ambiente (pássaros, trânsito
e
manipulação da câmara) e uma música dos Buffalo Springfield
("Expecting to fly", 1967).
.
Este vídeo, bem
como dois outros que realizaste apartir de imagens de acontecimentos reais captadas
por acaso ("Untitled (two)" (1999) e
"Untitled (Fire)" (1999-2000)), formam um corpo de contraponto aos
mundos cibernéticos proto-utópicos que habitualmente são
propostos na tua obra,
sendo que os
primeiros surgem quase como consequência do longo processo noturno de
trabalho ao computador que os últimos implicam.
Esta sincronicidade processual parece-me interessante dado a natureza extremista
das duas formas de produção de imagem por pura inerência
da
técnicas utilizadas: uma fruto de um acaso e realista, outra de um determinismo
hiper-consciente e fantástica. Gostaria de te pedir que fizesses o
esforço de analisar o teu trabalho do ponto de vista da criação
de uma utopia apartir de uma realidade fatídica.
É
uma proposta que faz todo o sentido. O Miguel Wandschneider, por exemplo, já
tinha tocado nesse mesmo ponto, no texto que fez para a minha
exposição no projecto "Slowmotion". Na origem, poder-se-á
dizer que esses três vídeos "reais" resultam do facto
da minha casa não ser completamente
isolada em relação ao exterior, isto é, de que oiço
constante e involuntariamente ruídos da rua e de vizinhos. Limitei-me
assim a reagir a esse input sonoro,
filmando cenas que qualquer outra pessoa com uma câmara de vídeo
à mão, filmaria. Esta é uma de três peças
que surgiram através desse processo
acidental, do qual resulta uma imagem em bruto. Imagens essas que se tornam
então, logo após serem captadas, "matéria prima"
passível de ser tratado
e manipulada como qualquer outro material gerado ou não por mim. Por
outro lado, quando tabalho obre uma sociedade utópica, ou proponho certa
ficção
científica ou tecnológica nas minhas peças, elas acabam
por sempre por revelar um contraponto - digamos - realista, ou por vezes sombrío.
Pense-se no
caso da militarização, nas peças "Archibunk3r Associates"
(2000) ou "Time for Space" (2000). A violência/destruição,
em "Barney Online" (1997) e "Your
mission is a failure" (1996). A poluição, em "SpaceJunk"
(2001), "Gustavo" (1999), "Celulight" (1999) e "desktop"
(1998). O isolamento, em "Sparky" (2002) e
"VR Trooper" (1996), ou, o fanatismo de "Heavens Gate" (1997)
e "Technocell" (1995). Estes são apenas alguns exemplos, que
poderiam eventualmente ser
contrapostos aos vídeos ditos "reais" que mencionei no início,
mas que acabam também por com eles confluír tematicamente. Claro
que para trabalhar,
parto do mundo real (como toda a gente), pois é nele que me encontro,
não conheço outro. O mundo real tem, como sabemos, esse lado -
como tu dizes -
fatídico. O lado utópico surge como reacção a esse
mesmo lado fatídico. São de certa forma causa e consequência
recíproca um do outro.
.
Na tua resposta fazes uma
afirmação curiosa: a de que qualquer pessoa munida de uma handycam
e surpreendida por um acidente, tomaria a decisão de o
filmar. Talvez qualquer pessoa o fizesse, mas nunca uma pessoa qualquer. Afinal,
é preciso ter um certo "estofo" para, em questão de
segundos, tomar a
decisão de "sacar" da câmara para "sugar" a
realidade no seu estado mais bruto e cruel: é preciso que se saiba lidar
com a realidade em tempo real, e com o
sofrimento que isso pode acarretar e a com razão pela qual se faz isso.
Quando tu apontas a câmara para o foco de incêndio, por exemplo,
não sabes ainda se
o homem aos berros está ao não a ser devorado pelas chamas (só
mais tarde vens a perceber que ele estava a tentar apagar o fogo
). Quando
filmas o
carro capotado, não sabes de início se estás a filmar a
morte dos seus ocupantes. Isto implica que durante algum tempo tu estavas a
filmar possíveis mortes
em tempo real, que felizmente se revelaram apenas hipóteses. Como é
que tu lidas com as questões éticas subjacentes a este tipo de
recolha de imagens
em tempo real?
Estofo
não tenho muito, pois a imagem treme e desfoca. O meu ritmo cardíaco
acelera.
No inicio a câmara é usada como binóculo, devido ao zoom,
para tentar perceber o que se está a passar. Depois, nas imagens editadas
que mostro, já não
dá para reconhecer as pessoas intervenientes - com a excepção
da peça "untitled (two)", que não tenciono voltar a
mostrar dentro de Portugal.
No entanto julgo não estar a captar cenas privadas de alguém,
pois tudo se passa na via pública, e não há grandes planos
dos intervenientes.
Esses três videos foram captados num periodo de cerca de 6 meses. Não
sei se voltarei a fazer mais algum trabalho dessa série.
Além disso, no último ano tenho estado mais isolado do ruído
externo, pois uso headphones para trabalhar em música.
.
Um outro ponto interessante,
e que une grande parte das tuas obras, é a capacidade de entender o vídeo
não como imagem, mas como junção de som e
imagem, em que cada elemento contribui de igual forma para a criação
do produto final. Como vês a ideia de se utilizar o som para provocar
uma re-interpretação
ou transubstanciação da imagem?
Por um lado
essa cumplicidade entre imagem e som é fundamental nos meus vídeos
e em quase todos os vídeos que conheço. Por outro lado, quando
um
amador tem uma câmara de vídeo, o som e a imagem são indissociáveis.
Não há forma de os separar. Portanto - geralmente - vídeo
é efectivamente imagem
e audio. Tenho no entanto a nocão de que o som pode influenciar a percepção
visual na mesma medida em que o editing das imagens o faz. No último
ano,
tenho dedicado especial atencão ao som pois comecei a compôr música
e a editar o som para os meus vídeos. Isso permite-me fazer o som para
as imagens,
e vice-versa de uma forma muito mais controlada, e portanto mais eficaz em relação
aos meus objectivos.
A forma como o som e a imgem são unidos, varia de trabalho para trabalho.
Em alguns casos, o som surge primeiro ("Copyright Law" (1994), "GT"
(2001) ou
"Sparky" (2002)), enquanto que noutros casos som e imagem evoluem
em simultâneo ("Barney Online" (1997) ou "Your mission
is a failure" (1996)).
Existem ainda outros nos quais o som é feito depois do vídeo ("Time
for Space" (2000) ou "SpaceJunk" (2001)). Sem dúvida que
me interessa muito a forma
como o som pode provocar uma re-interpretação ou transubstanciação
da imagem. Sendo que o inverso também é verdade. Não é
obrigatório que haja uma
hierarquia em que o som serve a imagem: os telediscos, por exemplo, são
um caso já notório em que o "motor" da imagem é
a potenciação e exponenciação
do produto sonoro.