Arquitecturas Ficcionais
por Helder
Coelho
no catálogo SpaceJunk, ed. O Museu Temporário, Lisbon, Portugal,
Ago2001
"A imaginação
abandonada pela razão produz monstros impossíveis: unida com ela,
é a mãe das artes e a fonte das suas maravilhas."
Goya
Como se constroi um enredo? Para alguns apenas com diálogos. Para outros, como Miguel Soares, através de configurações encenadas e sob a ideia que todos temos do universo (a do espaço aberto). Há, portanto, uma exposição do senso comum universal, atraente e provocatória.
Quando nos dispomos a ver e a sentir obras de arte exigimos duas técnicas do cinema, a focagem e a iluminação. Trata-se de erigir paisagens físicas, povoadas por personagens estranhas, ou de criar atmosferas de imaginação em cenários estimulantes. O artista opta aqui pela segunda via, e dispõe-se a criar a envolvente sobre a qual nós, impuros agentes, nos podemos debruçar. O parapeito é deveras confortável e a vista do balcão onde nos colocam estende-se até ao infinito.
Os adereços de consumo (a tralha) são espalhados pelo espaço graças a uma engenharia conceptual, e tudo é feito para facilitar a leitura da informação associada àqueles objectos. Sejamos claros: há uma organização das coisas materiais para figurar a realidade, que permite a estrutura do nosso pensamento. Guy Débord lembrar-se-ia do espectáculo, fazendo apelo às pulsões sociais intimistas e à nossa imensa curiosidade de espreitar atráves do buraco da janela. Miguel Soares coloca-se defronte do enquadramento e chama-nos para uma viagem interior e mental, gerindo a arte de respeitar a complexidade ou a simplicidade dos objectos escolhidos. Não existem pessoas humanas, mas os observadores humanos (mentes) interagem com aqueles corpos do quotidiano (apelo à nossa fantasia).
Está tudo feito para entrarmos numa viagem espacial de faz de conta, partilhando por algum tempo o esplendor panorâmico da noção do infinito com a banalidade dos objectos que nos perseguem aqui na terra. São os símbolos da alienação, da distracção do essencial, que enfrentamos em primeiro plano, apenas como lembrança de um tempo demasiado ocupado em coisas fúteis. Ao mandarmos borda fora toda aquela quinquilharia, estamos finalmente a afastarmo-nos do acessório, do lixo que nos enreda nas ficções que não desejamos viver.
Há uma história de viagem ou de jogos por narrar nestes cenários montados fotograficamente. A trama está pouco delimitada, porque o artista decidiu não impôr as personagens. Sejamos, assim, livres de pensar o que se irá passar a seguir. Existe uma nave algures na terra, e uns viajantes (que doravante designaremos apenas por agentes) apressados em partir. Na primeira volta em torno do planeta, e antes de o largar para sempre avistam a imensidão do inútil, a infinita enumeração das coisas artificiais que condicionaram as suas vidas e ocuparam os seus dia a dia. Perante uma sinopse tão simples projectam-se máquinas para engendrar automaticamente histórias que não necessitam de muitos mecanismos. Claro, que precisamos de agentes, mas estes até podem ser muito simples do tipo formiga. Assim, a sua arquitectura terá poucas componentes, a sua racionalidade será linear, as suas emoções articuladas com sentimentos pobres, e a função decisão terá de levar em conta apenas algumas acções primitivas. Depois, as regras de interacção social disporão que sociedade desses agentes será adequada no interior da nave, mas a imposição de cooperação será evidente, assim como alguma benevolência para evitarem conflitos. Faltam os modos de explorar o espaço, vulgares em qualquer ficção. E, para isso, devemos recorrer a uma técnica clássica de pesquisa, que combinaremos com umas heurísticas destinadas a evitar perder tempo em visitar um lugar mais de uma vez.
Olhando para o correr da história podemos gerar laços harmoniosos entre as nossas mentes e aqueles mundos virtuais. Porque não assumir o papel do filósofo que gosta de colocar meta questões perante as imagens e de construir exercícios mentais apenas com o objectivo de pensar? Poderá a razão adormecer, enquanto alguém nos convencerá sobre o que devemos acreditar e querer, alguém capaz de nos infectar com convicções artificiais?
Miguel Soares opera com método, construindo, peça a peça, um registo destinado a nos acordar do sono doentio. Com paciência desdobra o antídoto para nos fornecer o poder da crítica e da reflexão. Deste modo, podemos dar um passo atrás e olhar para a nossa perspectiva em situação. A forma é limpa e conceptual, o que nos permite produzir argumentos sólidos para prospectar o futuro.
E, depois? Haverá regresso à terra daquela nave? Com tanto lixo no espaço e tanta ameaça na terra, o melhor é programar a viagem de forma a imagin um universo sem fim eterno. Nós sabemos que isso não é verdade, mas não vamos dizer nada aos agentes. Para quê? São artificiais!